terça-feira, 24 de dezembro de 2013


CMS 14-04
JOÃO RELOJOEIRO: O MITO DA SANTIDADE

Iara Toscano Correia1
“(...) interpretar práticas e representações de culturas religiosas ditas populares significa mover-se num campo controvertido e com contornos difusos, pois elas reúnem uma enorme variedade de formas e expressões, quer no âmbito nacional ou regional” (GAETA, M. A 2000: 13)
                  Nos últimos anos tem havido um maior interesse por parte dos historiadores sobre o universo cotidiano da história, pois nele são vivenciadas as contradições da sociedade. Um mergulho profundo na vida pública e privada das pessoas comuns podem nos dar uma idéia sobre quais representações que essas fazem de si e do mundo, já que a história do vencedor está disseminada em todas as instâncias da sociedade burguesa, o necessário buscar nos comportamentos conhecer essa sociedade sob uma outra perspectiva.
                       Dessa forma, pretendemos “desvendar” a vida e a morte de uma “pessoa comum” que em 1956 se viu envolvido em uma trama que, o que a princípio, parecia encerrar com a sua morte, tem a sua continuidade quando essa figura ganha no imaginário popular o estatuto de santidade.
                       João Luiz Fagundes, vulgo João Relojoeiro ou ainda João Uberaba, era um homem de vida simples que tinha como ofício o concerto de relógios, nasceu e viveu no município de Uberaba-MG, até que, ao visitar alguns parentes na cidade de Uberlândia, enamorou-se por sua prima Maria Augusta. Logo passou a freqüentar, nessa cidade, a casa de seus pais. Ela nos descreve assim essa fase de sua vida:
“Foi um namoro muito tranqüilo, um namoro muito feliz (...) eu me lembro das (...) das modinhas que ele cantava (...) ele vinha de Uberaba me visita (...) depois ele ia embora, eu acompanhava ele (...) ficava na beira da estrada, ele tomava o trem na estação e eu ia (...) pro alto da Saraiva vê ele saí (...)”2
                  De acordo com D. Maria Augusta o seu namoro durou cerca de um ano e meio até o casamento, ela tinha, então, 16 anos de idade. O casamento foi bastante conturbado, considerando o seu trágico desfecho, durou por volta de 3 anos. João e Maria Augusta tiveram dois filhos, o primeiro de nome Hélio, que morreu aos seis meses de idade por desidratação e, o segundo, chamado Wagner.
                       O período, relativamente, curto do casamento foi marcado por separações e reconciliações que, segundo D. Maria Augusta, somaram-se 22. O sogro não aprovava o casamento o que ocasionou diversas brigas e discussões na família. Segundo ela um dos maiores motivos da discórdia era a bebida:
“(...) ele separava e ia embora n�? (...) e quando era pra ele voltá, então o meu pai era muito bravo, então meu pai me prometia tudo (...) que ia me bater, (...) tá sujano a família (...) aí ele vinha pra vortá, meu pai num deixava ele (João) gritava ‘Maria vem cá, vem cê (...)’ e eu num da, porque meu pai num deixava eu ir onde ele tava, ele (...) arrumava veneno (...) chega com uma lata de formicida na mão (...) acode aqui, acode, mas ele ia bebê esse veneno nada, ele fazia assim (...) porque (...) n�? (...) � s� cena (...)”3
                  Durante os períodos em que estavam separados João dormia em uma “casinha” no Mercado Municipal, uma espécie de oficina, em que atendia aos concertos de relógio e funcionava como moradia esporádica. Além do trabalho com relógios ia, também, para as fazendas da região trabalhar nas lavouras em épocas de safra:
“Ele fechava (...) ao ele fechava essa casinha e levava as ferramentas com ele (...) mesmo assim lá na (...) na roça (...) ele pegava relógio (...) arrumava (...) muitos (...) esses relógios de parede assim, ele fez muitos desses serviços nessas fazendas ao (...)”4
                  João Relojoeiro e sua esposa moraram durante algum tempo na Vila Saraiva, um bairro localizado na periferia da cidade na década de 50. Esse bairro apesar de estar geograficamente próximo ao centro comercial da cidade era cindido pelo ribeirão São Pedro, o que dificultava o livre acesso entre esse bairro e o centro, caracterizando, dessa forma, um dos primeiros subúrbios de Uberlândia.
                       Este era apenas um dos 27 bairros que compunham a cidade nesse período. A população contou, no ano de 1950, com 54.874 habitantes5, sendo que 35.799 habitavam a zona urbana e 19.185 a zona rural. A estimativa para o ano de 1956 foi de aproximadamente 43.984 para a população urbana, o que caracterizava essa cidade, já naquela época, como eminentemente urbana e em franco desenvolvimento, fator que contribuiu sobremaneira para o “boom” migratório que Uberlândia passaria a vivenciar a partir da década de 60, quando a população dobra de 1960 a 1970, e praticamente triplica no período de 1960 a 1980; sendo que, desse aumento demográfico, 75% foram decorrentes de migração.6
                       Várias pessoas vinham para a cidade com a expectativa de “fazer a vida” ou tentar algum tipo de investimento, fosse ele lícito ou não, ficando a cidade infestada por uma grande massa de desocupados vindos de todos os cantos do Brasil, atraídos muitas vezes pelas campanhas publicitárias que tinham como alvo os grandes investidores, Únicos capazes de trazer consigo o progresso e a modernidade, através da indústria. Para os fugitivos da miséria e da fome essa publicidade soava como promessas de trabalho e a possibilidade de uma vida um pouco melhor.
                       Nesse período, Uberlândia, assim como tantas outras cidades da região, almejava alcançar o título de Cidade Industrial, projetando nos vários discursos divulgados pela imprensa o seu sonho de cidade ideal: progressista, laboriosa e ordeira:
Há setenta anos, era São Pedro de Uberabinha. Hoje é a maravilhosa Uberlândia. Uberlândia do arranha-céu Tubal Vilela. Uberlândia do negro tapete de asfalto, das lambretas desfilando à noite, luz de milhares de luminosos a gás neon colorindo a vida da cidade tentacular. Uberlândia de gente apressada, de gente trabalhando, dos operários, dos comerciários que fazem rush às 11 horas da manha às seis da tarde. Uberlândia, enfim esta grandeza, este borborinho humano, esta maravilha de cidade se agita, sofre, ri, chora de acordo com as conveniências. Mas, acima disso a Uberlândia grande e altaneira, a metrópole triangulina, nossa terra, nosso orgulho. (CORREIO DE UBERL�NDIA, 30/08/58:1)
                  Realmente, na década de 50, Uberlândia projetou uma intensa transformação urbana, onde o seu traçado foi sendo redefinido a partir de um plano diretor7 que determinaria o seu crescimento. A cidade passou por um momento de euforia demográfica e por uma rápida transformação em seu aspecto físico; nesse período, muitas casas “velhas” foram demolidas, dando lugar a novos arranha-céus, ruas pavimentadas, avenidas foram alargadas, alguns córregos canalizados e houve uma melhoria no abastecimento de água que ganhou novas estruturas com a construção de reservatórios para atender a uma crescente demanda.
                       Em âmbito nacional, o Plano de Metas que seria implantado durante os cinco anos do governo Kubistheck, contava com três práticas que não estavam explicitadas: o mecanismo inflacionário em que a elevação dos salários não acompanhava os ganhos de produtividade e elevação dos preços; o déficit, público com a elevação dos gastos do governo em nível mundial e pelo recurso ao capital estrangeiro através de empréstimos ou na forma de capital de risco, agravando ainda mais as tensões sociais de então.8
                       Essas práticas levaram ao estrangulamento da economia brasileira, no final dos anos 50, ocasionando vários tipos de manifestações por parte da sociedade civil, que não suportava o arrocho salarial e os altos preços praticados pelos setores de comércio e serviços nos produtos de consumo essenciais, como alimentação, moradia e medicamentos. A frase mais corrente encontrada nos jornais da época era “tudo esta pela hora da morte”.
                       A partir de 1940, em todo o país, iremos perceber os vários discursos sobre a carestia e o alto custo de vida, e já em 1955 são inúmeras as reivindicações pela intervenção do governo nos preços dos alimentos, exigindo a sua regulamentação. Os jornais desse período trazem severas críticas sobre a carestia e o aumento abusivo dos preços. Em um deles encontramos exortação para que Deus castigue aqueles que aumentam o preço do leite:
“A Ele nesta hora suprema pedimos, imploramos até que castigue os que roubando do povo, tentam matar de fome, de anemia, de tristeza as criancinhas pobres de Uberlândia (...)”.9
                  Esse movimento nos permite perceber, por um lado, os problemas econômicos surgidos a partir de uma escolha política do governo: o “desenvolvimento” a qualquer custo10 e, por outro lado, uma (re) organização da sociedade civil, que passou a se utilizar de práticas como o boicote, greves e saques como forma de pressionar o governo por melhores condições de vida11. Essa situação tem como uma das principais implicações o golpe militar de 1964 como uma tentativa de reprimir mais severamente a população e promover uma reorganização nas estruturas de poder.
                       A reconstituição da história de João Relojoeiro pode parecer, em princípio, com a de muitos outros trabalhadores da cidade do seu tempo, uma pessoa que tinha o privilégio de possuir um ofício, coisa que naquele tempo era fundamental para a sobrevivência no meio urbano, e, apesar dos conflitos familiares, causados pelo alcoolismo, era chefe de família.
                       Mas, a sorte de João e sua família foi radicalmente transformada quando ele foi acusado de um roubo a joalheria A Royal, situada no centro comercial da cidade de Uberlândia no dia 31 para 10 de agosto do ano de 1956, no qual teria levado uma vultuosa quantia em jóias.
                       A partir do trabalho monográfico intitulado A Política nos Ardis da Justiça: o caso João Relojoeiro foi possível reconstituir uma parte da sua triste saga. Trilhando os caminhos dos processos criminais, conseguimos acender um pequeno candeeiro nessa fantástica e obscura trama, em que, de concreto verifica-se um roubo e uma morte, mas em nenhuma das situações o culpado é identificado. Nesse caso estão envolvidas pessoas ilustres e ilustres desconhecidos da cidade de Uberlândia: uma rica e tradicional família de industriais e políticos da cidade, que tinha um membro na Câmara dos vereadores – a família Testa –, um médico de renome – Dr. Duarte Portilho Ulhôa —, o delegado da cidade – Dr. Bolivar Malaquias –, dois investigadores da Polícia do Estado deslocados especialmente para o caso — Napoleão Alves Teixeira e Vicente Ribeiro Veiga, um carroceiro — Antônio Valentino (Antônio Preto), um menor — Belchior Custódio e o relojoeiro de nome João. Resumidamente passamos ao relato do que constituiu o “caso João Relojoeiro”:
No dia 10 de agosto, às 8:00 horas da manhã, a polícia local foi notificada de um assalto ocorrido naquela madrugada, mais ou menos por volta da meia noite. A joalheria A Royal, situada na Av. Afonso Pena, nº 512, de propriedade do Sr. Geraldo Malaquias Marques, foi arrombada e dela subtraída uma enorme quantia em jóias que em valores da época chegavam a 800.000,00 cruzeiros. A entrada na loja pelos gatunos teria se dado através do telhado do prédio, ao lado, por onde o ladrão (ou ladrões) teria escalado, alcançando o telhado da própria joalheria. Segundo o laudo pericial, constante do Inquérito montado a partir da queixa-crime, pode-se constatar que a entrada se dera por um buraco aberto no teto da loja:
“(...) penetrando no edifício Ângelo Testa – departamento – não se verificou nenhuma violência ou sinal de violencia na sua porta de entrada. Ganhando os dois andares alcançamos o segundo onde foi encontrado um “vitrou” medindo 0,36 cms. de altura por 0,75 cms. de comprimento, sem vidro dando perfeitamente para a passagem de um homem de corpo regular. Dali se avistou uma corda grossa amarrada numa caixa d’água (cano d’água) por onde se alcança, a poucos metros o telhado do prédio onde se acha instalada a mencionada relojoaria que esta com sete (7) telhas retiradas em forma de cruz dando também passagem com facilidade a um homem de corpo regular. Por ali, penetrando pelo teto, verificamos que dava passagem perfeito, pelo forro até encontrar o da relojoaria que se achava aberto em forma de losangulo, (...) que foi feito por uma pua e furado muito junto facilitando a remoção das taboas que são de pinha e frageis. Ali verificamos também uma corda pendente do teto, amarrada a um caibro que dava acesso ao interior da loja aberta que comporta com facilidade a passagem de um homem de corpo regular. Do teto ao solo, a distância é de quatro metros e oitenta e cinco centímetros. Várias vitrinas em baixo foram examinadas (...). Vários petrechos e taboas caidas do teto e pé de madeira, estojos vazios de joias, em profusão pelo chão (...)”12
                  Logo após a abertura do Inquérito Policial iniciam-se as buscas de investigação para apurar a autoria do crime. Sendo assim, a polícia e a família lesada pelo furto passaram a se ocupar única e exclusivamente desse caso. Várias buscas e diligências foram realizadas com o aval político e financeiro da família Testa. Nessa época o vereador Walter Testa contava com o prestígio político de ser um membro do PSD e um dos nomes mais cotados para disputar, no próximo pleito, o cargo de prefeito sob essa sigla.
                       A reconstituição desse crime é luz dos processos crimes demonstraram como a justiça pode estar subordinada aos interesses políticos numa estreita relação de interesses, naquele momento, caracterizada, sobretudo, pelo fato de que o cargo de delegado era considerado de confiança. De forma que, a cada mudança da política local mudava-se também de delegado, o mesmo podendo ocorrer, o que de fato ocorreu em várias ocasiões, a mudança de delegado por motivos ideológicos ou de escrúpulos, quando por exemplo a autoridade policial se recusava a seguir as “instruções” dos políticos locais, passavam a ser os alvos mais freqüentes de críticas e difamações nos meios de comunicação, deixando-os desacreditados perante a população que passava a exigir a sua substituição.
                  Após as primeiras “investigações” sobre do assalto ocorrido na joalheria, a polícia apontava João Relojoeiro, Antônio Valentino e o menor Belchior Custódio como suspeitos do roubo e logo após a sua prisão passam logo a acusá-los da sua autoria. A prisão desses indivíduos foi marcada pela arbitrariedade policial, evidenciada através dos vários depoimentos colhidos a posteriori As sessões de torturas nas quais os indiciados foram obrigados a confessar a sua participação no roubo, foram presenciadas por várias testemunhas. Antônio Valentino depois de preso foi levado a uma sala de frente a sala do delegado e interrogado a exaustão pelos investigadores, que diante das suas insistentes negativas foi, brutalmente, seviciado pelos investigadores que em, seguida, aplicaram-lhe a tortura denominada “pau de arara”:
“(...) violência que consiste em amarrar os bravos e as pernas do interrogado e colocar no intervalo dos mesmos uma trave ou alavanca que é apoiada em suas extremidades de preferência em móveis; que em conseqüência dessa violência fica o violentado em posição incômoda que causa grande sofrimento uma vez que a cabeça pelo seu peso pende para baixo e fica sob o corpo, o que provoca também transtorno circulatório ao violentado (...)”13
                  Segundo os depoimentos de Antônio Valentino, esse teria ficado nessa posição por mais de duas horas, ainda sendo afligido por ameaças, pontapés e pancadas em diversos locais do corpo. Após esse tratamento de choque, Antônio Valentino não viu outra alternativa senão admitir que havia participado do furto. O mesmo ocorreu a Belchior e João Relojoeiro.
                       Após colhidas as “confissões” dos indiciados iniciaram-se os suplícios para que eles indicassem em que local foram escondidas as jóias. Dessa forma, as violências reiniciaram-se, dessa vez, fora da delegacia, para preservar a investigação da presença de curiosos .
                       Foram várias as sessões de torturas as margens do rio Uberabinha, com cenas de afogamentos, agressões físicas e morais. Em um dado momento Antônio Valentino foi despido e logo após colocado em posição “adequada” pelo investigador Luiz Dias, que passou a lhe introduzir no ônus palitos de picolés, que havia trazido consigo em uma bolsa vermelha, sendo que a vítima tinha os pés e mãos amarradas nas costas.
                       João Relojoeiro era o nome que a polícia apontava como mentor intelectual do crime. Sendo assim, ele foi o que mais sofreu com as agressões. Para se ver livre de tamanhas violências passou a indicar este ou aquele local como sendo o esconderijo das jóias. Mesmo sem saber ao certo o que a polícia procurava. Procederam-se buscas nos vários lugares apontados pelo réu-vítima: a casa de um dentista prático, perto de Ituiutaba, para quem João havia vendido alguns relógios velhos; a casa de sua sobrinha perto da Fazenda do Panga, nas proximidades da cidade; a Vila Saraiva, local onde residia seu sogro e a sua esposa.
                       Após várias buscas sem sucesso Relojoeiro conseguiu escapar dos seus algozes, fugindo pelo cerrado em precárias condições de saúde, apesar de manco e a despeito dos tiros que lhe eram desferidos. Conseguiu guarida na fazenda onde residia sua sobrinha, na propriedade de Alexandre Marquez, este lhe permitiu ficar e, ainda, lhe aplicou um medicamento para que pudesse se recuperar dos ferimentos causados pelos maus tratos e pela fuga.
                       Logo João foi localizado e reconduzido a cadeia. Apesar de reiterar repetidas vezes a sua inocência e mesmo diante do álibi apresentado por Alexandre Marquez, que garantiu aos policiais a impossibilidade de João ter estado na cidade na mesma noite em que ocorreu o roubo, já que estava em sua propriedade, trabalhando na limpeza de um campo e havia passado a noite velando o corpo de uma sobrinha que havia morrido por afogamento no dia anterior. Ainda assim, esse senhor foi desacreditado pela polícia que tão logo saíram dessa fazenda reiniciou-se o flagelo de João.
                       Após a recondução de João Relojoeiro a cadeia ele passou a negar veementemente a sua participação no furto e assinou o depoimento negando todas as acusações que lhe foram dirigidas. Durante dez dias que se sucederam a prisão de João Relojoeiro os três acusados ficaram livres das torturas. O delegado e os investigadores foram a Belo Horizonte, resolver problemas administrativos, viajaram, também, para a capital uma comitiva de políticos do partido PSD da cidade. Um dos motivos dessa comissão seria a pedido de reforços policiais para a cidade e a designação de mais um investigador para a conclusão das investigações sobre assalto da joalheria A Royal. Nessa caravana estavam: Elpidio Aristides de Freitas (predidente do PSD), Antônio Tomaz Rezende (1º vice-presidente do partido), Walter Testa (2º vice-presidente do partido e vereador sob esta sigla), Odilon Custódio Pereira (Presidente do Sindicato Rural), Abalém Moruta (membro do partido), Antônio Fernandes de Oliveira (vereador do PSD) e Gleides Lemos (membro do partido), juntando-se a essa comissão em Belo Horizonte o Deputado Estadual Tubal Viela da Silva (eleito deputado pelo PSD).
                       Ao retornar a cidade o delegado, trouxe consigo um novo detetive designado exclusivamente para tratar do caso, Vicente Ribeiro Veiga. Intensificaram-se as torturas a pretexto de se encontrar a res furtiva. Nessa ocasião já corriam boatos na cidade de que o assalto havia sido mera simulação da família para conseguir o seguro das jóias, a título de pagar uma dívida de jogo em que havia se enredado um membro da família.
                       No dia 29 de agosto de 1956, por volta das 13 h, João Relojoeiro e Antônio Valentino foram removidos da cadeia e levados para a Fazenda Água Limpa, a 30 km da cidade de propriedade de um dos amigos da família Testa, o Sr Vadico Bernardes, lá as torturas ganharam a proporção de um assassinato. João Relojoeiro, nesse local, foi seviciado pela polícia e pela família Testa durante os quatro dias em que lá permaneceu, até a sua morte, no dia 02 de setembro de 1956.
                  Durante os seus últimos momentos de vida, na fazenda Água Limpa, João Relojoeiro recebeu a visita de um médico, Dr. Duarte de Ulhôa Portilho, que não prevendo morte iminente na vítima, limitou-se a aplicar-lhe coramina, penicilina e soro antitetânico. João veio a óbito 3 horas após a consulta do médico.
                       As evidências sobre o “furto” ocorrido na joalheria somente veio à luz a partir de um novo Inquérito Policial instaurado para investigar as circunstâncias da morte do acusado João Relojoeiro, morto sob a guarda da polícia administrativa, respondendo a um Inquérito que tecnicamente não era suficiente para lhe imputar o grau de criminoso e ainda que o fosse, não lhe foi permitida à menor condição de defesa.
                       O delegado foi substituído por um outro, os investigadores foram presos em Belo Horizonte e passaram a responder além de um processo interno, por serem servidores públicos, a um novo inquérito pela justiça comum que colocava no banco dos réus: Walter Testa, Roberto Testa, Geraldo Malachias Marques, Bolivar Malaquias, Napoleão Alves e Vicente Veiga.
                       O desfecho desse novo processo deu-se em júri popular que ocorreram nas cidades de Uberlândia e Araguari. O vereador Walter Testa sequer foi indiciado como culpado, os Srs. Roberto Testa, Geraldo Malachias Marques e Bolivar Malaquias foram absolvidos por unanimidade e apenas os dois investigadores que vieram de Belo Horizonte receberam uma condenação. Vicente Ribeiro Veiga foi condenado a dois anos e quatro meses de reclusão e Napoleão Alves a 3 anos de detenção sendo que a maior parte das penas já haviam sido cumpridas enquanto aguardavam o julgamento.
                       A análise produzida durante o trabalho monográfico foi apenas a ponta do iceberg. Pretendemos compreender as representações populares que, diante dos acontecimentos atrozes que ocorrem na cidade de Uberlândia no ano de 1956, culminaram com a mitificação de João Relojoeiro A discussão acerca da santificação de Relojoeiro e como se deu essa construção no imaginário da população local se constitui o objetivo dessa pesquisa que ora desenvolvemos, que são aqui apresentados apenas os resultados parciais.

                       Este evento histórico circunscreve-se na esfera da religiosidade popular que segundo Machado “(...) se abre como um campo de investigação privilegiado para aqueles que a entendem como práticas e representações culturais coletivas, presentes nas experiências concretas de vida dos indivíduos e, portanto, parte constitutiva do social, no qual uma teia complexa de relações as inscrevem”.14

                       Teoricamente trabalhamos com a História Cultural tal como a concebe Chartier que, segundo ele tem como “principal objecto identificar o modo como em diferentes lugares e momentos uma determinada realidade social é construída, pensada, dada a ler (...)”. Dessa perspectiva, conceitos tais como de representação e apropriação são fundamentais, pois que “as representações do mundo, a revelia dos actores sociais, traduzem as suas posições e interesses objectivamente confrontados e que, paralelamente, descrevem a sociedade tal como ela pensa que ela é, ou como gostaria que fosse (...)”.15
                       No que diz respeito ao conceito de apropriação, necessário se faz apontar que sua fonte encontra-se em Certeau quando discute as maneiras como se dá a produção e o consumo. Desmistificando a fórmula mágica de que as elites criam e produzem e que as classes populares cabe receber e consumir. Chartier, por esse viés, afirma que “(...) ler, olhar ou escutar são, efectivamente, uma série de atitudes intelectuais que – longe de submeter o consumidor a toda-poderosa mensagem ideológica e/ou estática que o supostamente devem modelar – permitem na verdade a reapropriação o desvio, a desconfiança ou resistência”.16
                       Dessa forma, é imprescindível perceber as imagens e representações que os sujeitos históricos constroem de si e do outro. Para tanto, faz-se necessário lançar mão do conceito de imaginário para desvendar essas representações. Nas palavras Sônia Lacerda “(...) o imaginário trabalha um horizonte psíquico habitado por representações e imagens canalizadoras de afetos, desejos, emoções, esperanças, emulações; o próprio tecido social é urdido pelo imaginário (...)”.17
                       De acordo com essa autora, o conceito de imaginário se distingue do de mentalidade que “(...) representaria apenas o domínio do adquirido, transformável na longa duração, mais distante dessa noção de força transformadora/sancionadora”. Dessa forma, o imaginário é a representação simbólica do real.
                       Para Patlagean o imaginário “(...) é constituído pelo conjunto das representações que ultrapassam o limite dos factos comprováveis pela experimentação e pelos encadeamentos dedutivos que esta autoriza, o que equivale a que cada cultura e, portanto, cada sociedade, logo cada nível de uma sociedade complexa, tenha o seu imaginário (...) a fronteira entre o real e o imaginário é variável enquanto que o território por ela delimitado permanece, pelo contrário sempre e em todo o lado, idêntico, pois ele não é mais do que o campo por excelência da experiência humana, do mais colectivamente social até o mais intimamente pessoal (...)”.18
                  É possível a partir da história de João Relojoeiro reconstruir um fragmento da cultura popular. Entendendo cultura como o conjunto de atitudes, crenças, códigos de comportamento próprios de uma classe19, Guinzburg um dos grandes teóricos da História Cultural, nos alertou para os estudos biográficos que mostram “(...) que um indivíduo medíocre, destituído de interesse por si mesmo — e justamente por isso representativo — pode ser pesquisado como se fosse um microcosmo de um estrato social inteiro num determinado período histórico (...).20
                       João Relojoeiro não é o que se pode chamar de indivíduo comum, a sua singularidade se encontra justamente no fato de ter sido ele a pessoa o escolhida para purgar a culpa de outros, ou seja, ele foi o homem ideal para atuar como ladrão de jóias nessa trama. Primeiro pelo seu ofício. Quem mais além de um relojoeiro saberia avaliar os objetos que roubava? Segundo, pelo lugar social que ocupa. Somente alguém dos estratos mais simples da população, poderia ser acusado “em um estado dito democrático” injustamente, sem qualquer observância sobre os regulamentos que acompanham a prisão de qualquer indivíduo em caso de ser interditado pela polícia, que é o de, no mínimo, constituir advogado.
                       Estabelecemos uma relação entre os sujeitos históricos, vítimas de injustiças terrenas que foram “redimidos” pelo povo em uma instância divina. Serão os martírios sofridos injustamente pelas pessoas comuns um elo de identidade, que faz com que se reconheçam nos torturados e injustiçados o poder de interceder por seus iguais junto as instâncias espirituais superiores?
                       Esta pesquisa propõe-se a investigar a construção do mito João Relojoeiro enquanto santo mártir da cidade de Uberlândia, que desde a sua morte até os nossos dias tem o seu túmulo visitado por fiéis e devotos que todos os anos rogam-lhe por algum pedido ou levam-lhe oferendas, como água e comida, em agradecimento aos pedidos atendidos.
                       De acordo com SANTOS (1998:43) “(...) a santidade é entendida como uma condição especial de ligação de alguns mortais com o celeste, que lhes proporciona a faculdade de manifestar sobrenaturalmente — em vida e/ou após sua morte — o poder divino no plano terreno, sobretudo em benefício de outros fiéis, por meio de feitos considerados ‘milagres’”.
                    Pretendemos perceber, por um lado, como a população “resolveu” o problema da injustiça e da impunidade, elevando João Relojoeiro a categoria de santo mártir, obreiro de milagres e, por outro, como um sujeito que, segundo os preceitos do catolicismo e da moral burguesa, não expressou em vida a sua santidade — muito pelo contrário, seus predicados são totalmente contraditórios com a essa moral — freqüenta e disputa juntamente com uma plêiade de padroeiros o imaginário popular de Uberlândia.
                       Nesse caso especificamente, a população, impotente diante das arbitrariedades dos “coronéis” da cidade, “resolve”, quem sabe, essa questão elevando João Relojoeiro a categoria de santo mártir. Ou seja, aquele que em vida não representou o modelo ideal de moral professada na ética burguesa, passa a ser visto como um homem santo e sofredor. Para tanto, devemos destacar o papel fundamental das biografias na edificação de uma identidade santorial.
                       Para SANTOS (1998:43) tanto o processo eclesiástico formal quanto o informal (ou popular) passam necessariamente pelas etapas de investigação, divulgação e construção de uma memória sobre os feitos milagrosos na trajetória da construção de uma santidade “(...) a reputação de santidade surge do contar e recontar as versões, oralizadas entre os devotos, sobre passagens virtuosas e milagrosas de sua vida”.
                       O que faz com que as pessoas reconheçam em um indivíduo a sua santidade? Para Stoll, o desapego material caracterizado pela renúncia de si em prol de outrem no exercício da caridade e da renúncia ao casamento, ao lazer, a família e a qualquer tipo de projeto pessoal é um dos critérios para essa identificação. Para ela, “o santo não é apenas aquele que realiza milagres. O que faz o santo é o modelo de conduta, ou seja, o estilo de vida. E este tem como uma de suas marcas fundamentais o exercício da renúncia, práticas que se traduz freqüentemente em experiências de sofrimento e sacrifício, duas outras categorias que fundam a nosso cristo de santidade”.21
                       De acordo com esses critérios, até que ponto o nosso “herói” pode ser considerado um santo? Enquanto vivo João Relojoeiro não cumpriu os preceitos de renúncia, colocados por Stoll. Talvez os motivos possam estar relacionados aos sofrimentos e ao sacrifício a que foi submetido tendo sido morto inocentemente.
                  Segundo DELUMEAU (2000) (...) os modelos de santidade evoluem segundo as épocas e as regiões (...). Dessa maneira, (...) períodos de perseguição honram particularmente os mártires (...) a Idade Média exaltou o espírito de pobreza e fraternidade (...)”. Já no século XX “(...) a generosidade dos que abandonam tudo para viver com os mais desfavorecidos, nos subúrbios ou nas favelas do 3º mundo (...)”. (p 20)
                       Nesse caso, podemos compreender o apelo da população que se comove com seu igual e quando o medo impede qualquer iniciativa de aglomeração popular e clamor pela justiça, resta apenas implorar a uma instância supra-humana para que a justiça seja feita. O sinal dessa justiça divina comprova-se, segundo a população local, com a realização de milagres. Assim como Cristo morreu para salvar, seria João Relojoeiro um mártir que a tudo suportou e que conseguiu a sua redenção ao ocupar uma posição privilegiada no plano espiritual?
                       Para a reconstituição desse imaginário além das fontes oficiais, como os jornais e os processos criminais, utilizamos, ainda, das fontes orais, imprescindíveis para recompor uma história que não existe enquanto registro oficial.
Notas
1 Mestranda em Hist�ria da Cultura pela UFU – e-mail: iaratoscano@zipmail.com.br. voltar
2 Entrevista realizada com D. Maria Augusta, no dia 22/09/94 em sua resid�ncia pelo Prof. Paulo Machado. voltar
3 Idem. voltar
4 Idem, Ibdem. voltar
Censo Demogr�fico de Minas Gerais – 1950. Anu�rio Estat�stico de Minas Gerais, 1982. voltar
6 Sobre este tema ver tamb�m: MACHADO, Maria Clara T. “A Disciplinariza��o da Pobreza no Espa�o Urbano Burgu�s: Assist�ncia Social Institucionalizada” – (Uberl�ndia – 1965 a 1980). S�o Paulo, Faculdade de Filosofia, Letras e Ci�ncias Humanas da USP, 316 p. (Disserta��o de Mestrado) e, tamb�m, SOARES, Beatriz. Ribeiro. “Uberl�ndia: Da Boca do Sert�o � Cidade Jardim”. In: Sociedade & Natureza. Edufu, Uberl�ndia, 9(18): 95-124, jul/dez. 1997. voltar
7 R�SC�E, Ot�vio. Projeto de Urbaniza��o da Cidade de Uberl�ndia. Belo Horizonte, 1951. voltar
8 GUIMAR�ES, Eduardo N. Infra-Estrutura P�blica Movimento de Capitais: a inser��o do Tri�ngulo Mineiro na divis�o inter-regional do trabalho. Centro de Desenvolvimento e Planejamento da UFMG, 224 p. (Disserta��o de Mestrado). voltar
9 Recortes de Jornal. Acervo do CDHIS, s.d. voltar
10 Ver: FONTANA, Josep. “Repensar a Hist�ria para reprojetar o futuro”. In.: Hist�ria: an�lise do passado e projeto social: Bauru: Universidade Sagrado Cora��o: EDUSC, 1999. p 251-266. voltar
11 Sobre esse tema ver: MACHADO, Paulo de Barros. “Uberl�ndia: um sucesso de bilheteria”. In: Cadernos de Hist�ria. Uberl�ndia, Ano 4, n� 4, janeiro, 1993, pp 99-104; NUNES, Leandro Jos�. Cidade e Imagens: progresso, Trabalho e Quebra Quebras – Uberl�ndia – 1950/1960. S�o Paulo, 1993, PUC-SP (Disserta��o de mestrado). voltar
12 Inqu�rito Policial, Processo n� 806. A��o Criminal “Furto Qualificado”. Laudo Pericial pp 8/9. C�pia do Inqu�rito encontra-se no acervo do CDHIS. voltar
13 Processo n� 811. A��o Criminal “Viol�ncia Arbitr�ria e Homic�cio”. Vol I Depoimento de Ant�nio Valentino em 04/09/56, Belo Horizonte, p 49 verso, o processo encontra-se no acervo do CDHIS. voltar
14 MACHADO, Maria Clara T. “O Am�lgama da Cren�a no Cotidiano Popular Mineiro: a f� e o festar”. In: Rhema, v. 04, n� 16 p 1998. Sobre esse tema ver tamb�m: CHAU�, Marilena. “Notas Sobre Cultura Popular”. In: Cultura e Democracia: o discurso competente e outras falas. S�o Paulo: Editora Moderna, 1982; DUPRONT, Alphonse. “A Religiosa: Antropologia Religiosa”. In: LE GOFF, Jacques & NORA, Pierre (Orgs.) Hist�ria: novas abordagens. 1986. p 83-105. voltar
15 CHARTIER, Roger. A Hist�ria Cultural: entre pr�ticas e representa��es. Lisboa: DIFEL, 1998. p 59. Sobre apropria��o e resist�ncia ver tamb�m: CERTEAU, Michel. A Inven��o do Cotidiano. Rio de Janeiro: Vozes, 1994. pp 79 e 85. voltar
16 Idem. p 59. voltar
17 LACERDA, S�nia. ”Hist�ria, narrativa e imagina��o hist�rica”. voltar
18 PATLAGEAN, Evelyne “A Hist�ria do Imagin�rio”. In: A Nova Hist�ria. Coimbra, Almedina, 1978. p 292. voltar
19 GUINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes. S�o Paulo, Cia das Letras, 1991. p 16. voltar
20 Idem. “Pref�cio � Edi��o Italiana”. pp 27. voltar
21 STOLL, Sandra Jacqueline. “A Apropria��o Cultural do Espiritismo no Brasil. In: Hist�ria: Quest�es & Debates. Curitiba, Editora da UFPR, n� 28, 1998. p 53. voltar

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